Você já ouviu falar em verbo defectivo? Pois é, isso existe! Assim como as pessoas e os objetos, o verbo também pode apresentar defeito. Linguisticamente, essa afirmação significa que alguns verbos do Português não são conjugados em todas as pessoas (1ª, 2ª e 3ª do singular ou plural), tempos (presente, passado e futuro) ou modos (indicativo, subjuntivo e imperativo). De maneira geral, essa defectibilidade ocorre por questões de eufonia (produção de som agradável ao ouvido) ou de sua própria significação.
Como exemplo relacionado à eufonia, podemos citar o verbo computar. Para garantir que não haja efeitos desagradáveis aos nossos ouvidos, ele não é usado nas três primeiras pessoas do presente do indicativo. Ou seja, não existem as formas “eu computo”, “tu computas” ou “ele computa”. Diante de uma necessidade de fazer referência a essa ação, temos duas opções: ou trocamos o verbo por um sinônimo ou mudamos a estrutura da frase. Assim, diríamos: “Em todas as eleições, eu faço o cômputo dos votos” ou “... conto/calculo os votos” ou “... tenho a responsabilidade de computar os votos”.
No que diz respeito à significação, temos o exemplo dos verbos que designam vozes de animais. Latir é um deles. Essa forma verbal só pode ser conjugada na 3ª pessoa, do singular ou plural, uma vez que se trata de uma ação característica de um cão, isto é, somente o animal (= ele) produz esse som. Sendo assim, não há emprego do verbo para indicar o falante (= eu) ou o ouvinte (= tu) como agentes dessa ação. Portanto eu não “lato”, tu não “lates”, nós não “latimos” e vós não “latis” – já que essas formas não existem! –, mas ele late e eles latem.
É claro que podemos encontrar seu uso no mundo da ficção – em que um cão seja personagem de uma história e possa referir-se ao seu próprio ato de latir – ou, raramente, com o verbo no sentido figurado – quando foge ao seu significado original, como, por exemplo, em “Com muita raiva, eu lati aquelas duras palavras.”. Além disso, o efeito sonoro também interfere na conjugação do verbo. Ele não pode ser usado nas formas em que o “t” seria seguido de “o” (como em “eu lato”, ainda que estejamos no mundo ficcional) ou “a” (mesmo na 3ª pessoa). Por isso, não espere que o seu cachorro “lata” para avisar a chegada de alguém. Como essa forma não pode ser empregada, substitua-a ou mude a estrutura da frase: “Eu espero que meu cachorro ladre (ou dê latidos) para avisar a presença de estranhos no portão.”.
Como podemos observar, defeito é o que não falta nos verbos. Temos alguns casos que, de modo geral, não são conhecidos e tornam o emprego de algumas formas inadequado. Conhecer os verbos defectivos deve ser uma virtude dos bons usuários da língua portuguesa! Então, no próximo artigo, continuaremos com eles.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 489, Região dos Lagos, sábado, 12-9-2009, p.4)
Grupo de Estudos de Língua Portuguesa com o objetivo de reunir pessoas interessadas em ampliar o domínio oral e escrito do Português.
domingo, 20 de junho de 2010
terça-feira, 25 de maio de 2010
HÁ DÚVIDAS?
Determinados verbos em língua portuguesa apresentam particularidades que exigem uma atenção maior de nossa parte. O verbo haver é um deles. Entre as muitas de suas significações, podemos encontrá-lo como sinônimo de “existir” ou “ocorrer”. Por isso, quando ouvimos alguém dizer “Há um desvio na pista para que a obra possa ser finalizada.” ou “Houve um engarrafamento na pista de acesso à Região dos Lagos”, o haver pode ser substituído, perfeitamente, por aquelas formas verbais: “Existe um desvio...” ou “Ocorreu um engarrafamento...”.
A particularidade a que me refiro se encontra especificamente nesse significado. No sentido de “existir” ou “ocorrer”, ele deve ficar sempre na 3ª pessoa do singular (na forma referente ao “ele”). Isso acontece por ser um verbo impessoal, ou seja, não tem sujeito, não se refere a nenhum ser (pessoa, animal, objeto ou acontecimento). Logo não precisa concordar com nenhum termo existente na frase.
Uma forma de percebermos isso mais claramente é compará-lo com seus próprios sinônimos “existir” e “ocorrer”, que são verbos pessoais, isto é, devem concordar com seu sujeito. Assim, se o termo a que se refere a ação estiver no singular, esses verbos ficam no singular: “Existe uma pessoa lá fora, querendo falar com você.”; “Ocorreu um acidente grave naquela estrada.”. Caso esse termo esteja no plural, os verbos vão para o plural também: “Existem várias pessoas lá fora, querendo falar com você.”; “Ocorreram muitos acidentes graves naquela estrada.”. Com o verbo haver, isso não se dá. Independentemente do termo que apareça na frase, ele fica somente na forma do singular: “Há uma pessoa lá fora,...”; “Há várias pessoas lá fora,...”; “Houve um acidente grave...”; “Houve muitos acidentes graves...”.
Esse uso – sempre no singular – vale para todos os tempos verbais (presente, passado e futuro). Sendo assim, não é correto empregá-lo na forma do plural no passado ou no futuro, como se vê por aí: “Haviam muitas pessoas no show.” ou “Houveram várias manifestações de desagrado durante a reunião.” ou “Haverão vários feriados neste segundo semestre.”. Como diz aquele famoso árbitro e comentarista esportivo, a regra é clara, e a repetimos: o verbo haver com sentido de “existir” ou “ocorrer” fica sempre no singular. Portanto a estrutura adequada é: “Havia muitas pessoas...”, “Houve várias manifestações...” e “Haverá vários feriados...”.
Espero que não haja mais dúvidas a esse respeito.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, Região dos Lagos, sábado, 05-9-2009, p.4)
A particularidade a que me refiro se encontra especificamente nesse significado. No sentido de “existir” ou “ocorrer”, ele deve ficar sempre na 3ª pessoa do singular (na forma referente ao “ele”). Isso acontece por ser um verbo impessoal, ou seja, não tem sujeito, não se refere a nenhum ser (pessoa, animal, objeto ou acontecimento). Logo não precisa concordar com nenhum termo existente na frase.
Uma forma de percebermos isso mais claramente é compará-lo com seus próprios sinônimos “existir” e “ocorrer”, que são verbos pessoais, isto é, devem concordar com seu sujeito. Assim, se o termo a que se refere a ação estiver no singular, esses verbos ficam no singular: “Existe uma pessoa lá fora, querendo falar com você.”; “Ocorreu um acidente grave naquela estrada.”. Caso esse termo esteja no plural, os verbos vão para o plural também: “Existem várias pessoas lá fora, querendo falar com você.”; “Ocorreram muitos acidentes graves naquela estrada.”. Com o verbo haver, isso não se dá. Independentemente do termo que apareça na frase, ele fica somente na forma do singular: “Há uma pessoa lá fora,...”; “Há várias pessoas lá fora,...”; “Houve um acidente grave...”; “Houve muitos acidentes graves...”.
Esse uso – sempre no singular – vale para todos os tempos verbais (presente, passado e futuro). Sendo assim, não é correto empregá-lo na forma do plural no passado ou no futuro, como se vê por aí: “Haviam muitas pessoas no show.” ou “Houveram várias manifestações de desagrado durante a reunião.” ou “Haverão vários feriados neste segundo semestre.”. Como diz aquele famoso árbitro e comentarista esportivo, a regra é clara, e a repetimos: o verbo haver com sentido de “existir” ou “ocorrer” fica sempre no singular. Portanto a estrutura adequada é: “Havia muitas pessoas...”, “Houve várias manifestações...” e “Haverá vários feriados...”.
Espero que não haja mais dúvidas a esse respeito.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, Região dos Lagos, sábado, 05-9-2009, p.4)
terça-feira, 4 de maio de 2010
VER, NO FUTURO.
O verbo ver apresenta uma irregularidade em sua conjugação, ou seja, ele não tem a mesma base (também chamada de “radical”) em todos os tempos (presente, passado e futuro). Comparando-o com “cantar”, é possível entender isso claramente: canto/cantas/canta (no presente), cantei/cantastes/cantou (no passado), cantarei/cantarás/cantará (no futuro). Para ver, temos: vejo/vês/vê (no presente), vi/vistes/viu (no passado), verei/verás/verá (no futuro). Podemos observar que, para o primeiro, a base é sempre a mesma – cant- – ao passo que, para o segundo, ela varia, de acordo com o tempo.
Mesmo com essa mudança, o falante consegue empregá-lo corretamente no dia a dia. Acontece, porém, que, geralmente, há uma confusão no futuro do subjuntivo. Futuro é fácil: tem relação com algo que vai acontecer. E o subjuntivo? Ele é um modo verbal utilizado para dar a ideia de dúvida, hipótese, possibilidade sobre uma ação; diferentemente do indicativo, que transmite a noção de certeza sobre o acontecimento. Quando digo “Eu sei isso.”, o verbo está no presente do indicativo, e há certeza sobre o fato de saber algo. Já em “Ele espera que eu saiba isso.”, a forma verbal se encontra no presente do subjuntivo, e existe uma dúvida quanto a esse saber. No futuro, temos: “Eu saberei o resultado do exame amanhã.”, e a ação é tida como certa. Em “Quando eu souber isso, lhe ensinarei.”, a ação expressa uma hipótese, algo possível de ocorrer.
O verbo ver, no futuro do subjuntivo, é conjugado da seguinte forma: vir, vires, vir, virmos, virdes e virem. Ao expressarmos a possibilidade ou a condição de ver alguém ou alguma coisa, devemos empregar uma dessas formas, de acordo com a situação. Por isso, a maneira correta de se falar ou escrever é: “Quando você vir o filme, vai entender o que estou falando.” ou “Se eu vir o repórter, darei seu recado.”
A princípio, parece estranho aos ouvidos, pois é comum se dizer “Quando você ver...” ou “Se eu ver...”. Essa construção, entretanto, não é adequada, uma vez que foge à conjugação original do verbo. Alguns acreditam que a forma “vir”, usada para a 1ª (eu) e a 3ª (ele) pessoa do singular, estaria associada, não ao verbo ver, mas ao vir (= “deslocar-se de algum lugar”). Ao se empregar o verbo vir no futuro do subjuntivo, teríamos: “Quando você vier aqui em casa, farei um almoço especial.” ou “Se eu vier amanhã a sua casa, trarei a encomenda.”
Em suma: o verbo ver tem conjugação específica no futuro do subjuntivo, que não pode ser confundida com a forma do verbo vir no infinitivo. Portanto, meu prezado leitor, quando você vir alguém com dúvidas sobre isso, repasse essa explicação. Agora, minha cara editora, se vier alguma pergunta para a redação do jornal acerca do tema, encaminhe-me, por favor.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 487, Cabo Frio, sábado, 29-8-2009, p.4)
Mesmo com essa mudança, o falante consegue empregá-lo corretamente no dia a dia. Acontece, porém, que, geralmente, há uma confusão no futuro do subjuntivo. Futuro é fácil: tem relação com algo que vai acontecer. E o subjuntivo? Ele é um modo verbal utilizado para dar a ideia de dúvida, hipótese, possibilidade sobre uma ação; diferentemente do indicativo, que transmite a noção de certeza sobre o acontecimento. Quando digo “Eu sei isso.”, o verbo está no presente do indicativo, e há certeza sobre o fato de saber algo. Já em “Ele espera que eu saiba isso.”, a forma verbal se encontra no presente do subjuntivo, e existe uma dúvida quanto a esse saber. No futuro, temos: “Eu saberei o resultado do exame amanhã.”, e a ação é tida como certa. Em “Quando eu souber isso, lhe ensinarei.”, a ação expressa uma hipótese, algo possível de ocorrer.
O verbo ver, no futuro do subjuntivo, é conjugado da seguinte forma: vir, vires, vir, virmos, virdes e virem. Ao expressarmos a possibilidade ou a condição de ver alguém ou alguma coisa, devemos empregar uma dessas formas, de acordo com a situação. Por isso, a maneira correta de se falar ou escrever é: “Quando você vir o filme, vai entender o que estou falando.” ou “Se eu vir o repórter, darei seu recado.”
A princípio, parece estranho aos ouvidos, pois é comum se dizer “Quando você ver...” ou “Se eu ver...”. Essa construção, entretanto, não é adequada, uma vez que foge à conjugação original do verbo. Alguns acreditam que a forma “vir”, usada para a 1ª (eu) e a 3ª (ele) pessoa do singular, estaria associada, não ao verbo ver, mas ao vir (= “deslocar-se de algum lugar”). Ao se empregar o verbo vir no futuro do subjuntivo, teríamos: “Quando você vier aqui em casa, farei um almoço especial.” ou “Se eu vier amanhã a sua casa, trarei a encomenda.”
Em suma: o verbo ver tem conjugação específica no futuro do subjuntivo, que não pode ser confundida com a forma do verbo vir no infinitivo. Portanto, meu prezado leitor, quando você vir alguém com dúvidas sobre isso, repasse essa explicação. Agora, minha cara editora, se vier alguma pergunta para a redação do jornal acerca do tema, encaminhe-me, por favor.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 487, Cabo Frio, sábado, 29-8-2009, p.4)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
ASSOAR, SOAR E SUAR
Muitas vezes, a relação entre a forma de uma palavra e seu significado é desconhecida dos falantes. Isso provoca algumas situações de trocas que trazem confusão. Um trio traiçoeiro são os verbos assoar, soar e suar.
A semelhança sonora entre essas palavras é tanta, que pode levar um usuário menos atento a acreditar que haja uma só forma. Podemos chegar a essa conclusão com base numa análise bem simples. O “o” fechado em sílaba átona (fraca, sem tonicidade), de maneira geral, é pronunciado como “u”. É justamente esse o caso de boate (=“buate”), pessoal (=“pessual”) e pano (=”panu”), por exemplo. Partindo desse raciocínio, as formas soar e suar ficam, na fala, reduzidas a somente uma: “suar”. O mesmo fenômeno ocorre em assoar, que, no discurso oral, acaba por ser falado “assuar”. Como o “a” inicial da palavra é articulado de um modo bem frágil, ele acaba, em determinadas ocasiões, sendo eliminado na fala espontânea, restando, então, apenas “suar”. Consequência desses processos: o uso inadequado na hora de conjugá-los.
Segundo definição encontrada em dicionário da língua portuguesa, assoar se refere ao ato de “limpar o nariz de mucosidade”, ou seja, “limpar-se do muco nasal, fazendo sair o ar com força pelas narinas”. Numa situação como essa, devemos, por exemplo, dizer: “Preciso ir ao banheiro para assoar o nariz.” E, assim como o verbo abençoar em “Eu o abençoo.” e “Ele o abençoa.”, o correto é “Quando estou resfriado, eu assoo o nariz toda hora.” e “Quando ele está resfriado, assoa o nariz toda hora.”
O verbo soar já significa “emitir ou produzir som, retumbar, ecoar”. Deve ser empregado da mesma forma que assoar. Podemos exemplificar seu uso com as frases: “Se o alarme soar, avise-me imediatamente.”, “Quando soo esse ruído, todos se assustam.” e “O sino da igreja sempre soa a essa hora.” Logo devemos observar que, ao conjugarmos os verbos assoar e soar dessa forma, a pronúncia do “o” fechado deve ser preservada, caso contrário será confundido com o verbo suar.
A forma verbal suar, por sua vez, relaciona-se, especificamente, à ação de “transpirar, verter suor pelos poros”. Quando conjugado, o “u” deve ser pronunciado normalmente, do mesmo modo que fazemos com o verbo atuar, por exemplo. Assim como dizemos “Eu atuo bem” e “Ele atua bem.”, temos, para o verbo suar: “Eu suo muito.” e “Ele sua muito.”
É necessário, portanto, um pouquinho mais de atenção no emprego desses verbos, a fim de, além de não mudar seus significados, não trocar suas conjugações. Uma boa estratégia para não haver essas confusões é associá-los a outras formas verbais semelhantes.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 486, Cabo Frio, sábado, 22-8-2009, p.4)
A semelhança sonora entre essas palavras é tanta, que pode levar um usuário menos atento a acreditar que haja uma só forma. Podemos chegar a essa conclusão com base numa análise bem simples. O “o” fechado em sílaba átona (fraca, sem tonicidade), de maneira geral, é pronunciado como “u”. É justamente esse o caso de boate (=“buate”), pessoal (=“pessual”) e pano (=”panu”), por exemplo. Partindo desse raciocínio, as formas soar e suar ficam, na fala, reduzidas a somente uma: “suar”. O mesmo fenômeno ocorre em assoar, que, no discurso oral, acaba por ser falado “assuar”. Como o “a” inicial da palavra é articulado de um modo bem frágil, ele acaba, em determinadas ocasiões, sendo eliminado na fala espontânea, restando, então, apenas “suar”. Consequência desses processos: o uso inadequado na hora de conjugá-los.
Segundo definição encontrada em dicionário da língua portuguesa, assoar se refere ao ato de “limpar o nariz de mucosidade”, ou seja, “limpar-se do muco nasal, fazendo sair o ar com força pelas narinas”. Numa situação como essa, devemos, por exemplo, dizer: “Preciso ir ao banheiro para assoar o nariz.” E, assim como o verbo abençoar em “Eu o abençoo.” e “Ele o abençoa.”, o correto é “Quando estou resfriado, eu assoo o nariz toda hora.” e “Quando ele está resfriado, assoa o nariz toda hora.”
O verbo soar já significa “emitir ou produzir som, retumbar, ecoar”. Deve ser empregado da mesma forma que assoar. Podemos exemplificar seu uso com as frases: “Se o alarme soar, avise-me imediatamente.”, “Quando soo esse ruído, todos se assustam.” e “O sino da igreja sempre soa a essa hora.” Logo devemos observar que, ao conjugarmos os verbos assoar e soar dessa forma, a pronúncia do “o” fechado deve ser preservada, caso contrário será confundido com o verbo suar.
A forma verbal suar, por sua vez, relaciona-se, especificamente, à ação de “transpirar, verter suor pelos poros”. Quando conjugado, o “u” deve ser pronunciado normalmente, do mesmo modo que fazemos com o verbo atuar, por exemplo. Assim como dizemos “Eu atuo bem” e “Ele atua bem.”, temos, para o verbo suar: “Eu suo muito.” e “Ele sua muito.”
É necessário, portanto, um pouquinho mais de atenção no emprego desses verbos, a fim de, além de não mudar seus significados, não trocar suas conjugações. Uma boa estratégia para não haver essas confusões é associá-los a outras formas verbais semelhantes.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 486, Cabo Frio, sábado, 22-8-2009, p.4)
quinta-feira, 15 de abril de 2010
RATIFICAR E RETIFICAR
Na língua portuguesa, existem palavras que apresentam semelhança na grafia e na pronúncia, o que, muitas vezes, gera confusão na hora de empregá-las. De modo geral, isso se deve pela existência de uma letra diferente apenas. Essa minúscula distinção, no entanto, é responsável por uma mudança expressiva de significado.
Um caso bem interessante diz respeito às palavras ratificar e retificar. A simples troca do “a” pelo “e” faz com que seus significados sejam completamente diferentes. Usar essas formas verbais indistintamente pode trazer problemas de entendimento.
Por exemplo, vamos imaginar que um indivíduo tenha recebido uma solicitação do responsável pelo departamento pessoal de sua empresa para verificar se o endereço que consta na sua ficha cadastral está correto ou não. Qual das seguintes frases poderia ser dita pelo funcionário? “Preciso ratificar meu endereço.” ou “Preciso retificar meu endereço.”? Resposta: depende do seu objetivo, uma vez que as sentenças têm informações distintas. Caso o endereço esteja correto, a primeira sentença é a adequada à situação comunicativa. Se, porém, o endereço estiver desatualizado, o empregado deve optar pela segunda. Isso acontece, porque o verbo ratificar significa “confirmar”, “validar o que foi feito ou prometido”, “comprovar”. Sendo assim, o endereço deveria ser “ratificado” (confirmado), sofrer “ratificação” (confirmação). Já a forma verbal retificar tem como significado “corrigir”, “emendar”. Logo o endereço teria que ser “retificado” (corrigido), sofrer “retificação” (correção).
A origem de tais palavras explica essa diferença. Embora os elementos iniciais de composição tenham a mesma origem, o latim, seus significados são distintos. Ratificar surgiu da união de “rat(i)-”, em que um dos significados é “confirmado”. Retificar, por sua vez, tem na sua composição “reti-”, cujo significado é “reto”, “direito”.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 485, Cabo Frio, sábado-domingo, 15-8-2009, p.4)
Um caso bem interessante diz respeito às palavras ratificar e retificar. A simples troca do “a” pelo “e” faz com que seus significados sejam completamente diferentes. Usar essas formas verbais indistintamente pode trazer problemas de entendimento.
Por exemplo, vamos imaginar que um indivíduo tenha recebido uma solicitação do responsável pelo departamento pessoal de sua empresa para verificar se o endereço que consta na sua ficha cadastral está correto ou não. Qual das seguintes frases poderia ser dita pelo funcionário? “Preciso ratificar meu endereço.” ou “Preciso retificar meu endereço.”? Resposta: depende do seu objetivo, uma vez que as sentenças têm informações distintas. Caso o endereço esteja correto, a primeira sentença é a adequada à situação comunicativa. Se, porém, o endereço estiver desatualizado, o empregado deve optar pela segunda. Isso acontece, porque o verbo ratificar significa “confirmar”, “validar o que foi feito ou prometido”, “comprovar”. Sendo assim, o endereço deveria ser “ratificado” (confirmado), sofrer “ratificação” (confirmação). Já a forma verbal retificar tem como significado “corrigir”, “emendar”. Logo o endereço teria que ser “retificado” (corrigido), sofrer “retificação” (correção).
A origem de tais palavras explica essa diferença. Embora os elementos iniciais de composição tenham a mesma origem, o latim, seus significados são distintos. Ratificar surgiu da união de “rat(i)-”, em que um dos significados é “confirmado”. Retificar, por sua vez, tem na sua composição “reti-”, cujo significado é “reto”, “direito”.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 485, Cabo Frio, sábado-domingo, 15-8-2009, p.4)
quarta-feira, 7 de abril de 2010
EM VEZ DE ou AO INVÉS DE?
Hoje, vamos tratar de outra dúvida muito frequente no que diz respeito ao emprego adequado do vocabulário da língua portuguesa. Você conhece a diferença entre as expressões em vez de e ao invés de? Pois é, além da semelhança sonora, elas são muitas parecidas na escrita. Essa característica deixa muitas pessoas confusas quanto ao seu uso (isso quando chegam a pensam no caso) ou (o que é mais comum) julgam-nas equivalentes, não fazendo distinção alguma ao empregá-las.
Podemos começar a fazer a diferença entre elas, com a consulta ao dicionário. Nele, constatamos que a estrutura em vez de tem seu significado centrado na palavra “vez”, cuja origem é a forma latina “vice”, a qual nos traz a ideia de “substituição”; afinal, “vice-presidente” é aquele que substitui o presidente, que faz a “vez” dele, na sua ausência ou seu impedimento. Inclusive, uma das significações dessa palavra diz respeito à “ocasião ou oportunidade que cabe a cada um, dentro de uma sequência estabelecida; turno, hora”. Ou seja, há a alternância de algo sobre outro, uma coisa no lugar de outra. Isso nos leva ao entendimento de que seu uso deve ser feito, preferencialmente, para expressar essa noção. Sendo assim, quando dizemos “Em vez de carne, hoje pretendo comer peixe.”, compreende-se perfeitamente que um (peixe) será ingerido no lugar do outro (carne).
De acordo com os gramáticos, seu uso pode ser ampliado para contextos em que haja uma ideia de oposição, como, por exemplo: “Em vez de triste, mostrou-se feliz com o adiamento da entrevista de emprego.”. Nessa frase, é possível resgatar a ideia de substituição, entendendo-se que o estado de felicidade assumiu o lugar do de tristeza.
Agora, atenção: a expressão ao invés de tem emprego restrito. Voltando ao nosso valioso dicionário, chegamos à informação de que a palavra “invés” entrou na língua portuguesa como uma modificação de “inverso”, o que, porém, não interferiu no significado original: “lado oposto”, “avesso”. Logo ao invés de quer dizer “ao contrário de”; “ao revés de”. O resultado disso é que seu uso está diretamente associado à ideia de contrariedade, de oposição entre duas informações. No segundo exemplo, seu emprego é permitido: “Ao invés de triste, mostrou-se feliz com o adiamento da entrevista de emprego.”. É possível observar claramente que “triste” apresenta significado oposto a “feliz”. Com isso, a expressão ao invés de foi empregada de forma adequada na frase, já que seu sentido original mantém-se preservado. Quanto ao primeiro, a troca não seria aceita, pois não há oposição entre os elementos envolvidos: “peixe” não é o contrário de “carne”. Justamente por esse motivo, não seria possível o emprego de ao invés de na frase.
De modo resumido, podemos concluir: em vez de pode ser usado para as noções de “substituição” e de “oposição”, ao passo que ao invés de deve expressar, rigorosamente, a ideia de “oposição”. Como muito se disse por aí, “cada um no seu quadrado”!
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 497, Região dos Lagos, sábado e domingo, 7/8-11-2009, p.4)
Podemos começar a fazer a diferença entre elas, com a consulta ao dicionário. Nele, constatamos que a estrutura em vez de tem seu significado centrado na palavra “vez”, cuja origem é a forma latina “vice”, a qual nos traz a ideia de “substituição”; afinal, “vice-presidente” é aquele que substitui o presidente, que faz a “vez” dele, na sua ausência ou seu impedimento. Inclusive, uma das significações dessa palavra diz respeito à “ocasião ou oportunidade que cabe a cada um, dentro de uma sequência estabelecida; turno, hora”. Ou seja, há a alternância de algo sobre outro, uma coisa no lugar de outra. Isso nos leva ao entendimento de que seu uso deve ser feito, preferencialmente, para expressar essa noção. Sendo assim, quando dizemos “Em vez de carne, hoje pretendo comer peixe.”, compreende-se perfeitamente que um (peixe) será ingerido no lugar do outro (carne).
De acordo com os gramáticos, seu uso pode ser ampliado para contextos em que haja uma ideia de oposição, como, por exemplo: “Em vez de triste, mostrou-se feliz com o adiamento da entrevista de emprego.”. Nessa frase, é possível resgatar a ideia de substituição, entendendo-se que o estado de felicidade assumiu o lugar do de tristeza.
Agora, atenção: a expressão ao invés de tem emprego restrito. Voltando ao nosso valioso dicionário, chegamos à informação de que a palavra “invés” entrou na língua portuguesa como uma modificação de “inverso”, o que, porém, não interferiu no significado original: “lado oposto”, “avesso”. Logo ao invés de quer dizer “ao contrário de”; “ao revés de”. O resultado disso é que seu uso está diretamente associado à ideia de contrariedade, de oposição entre duas informações. No segundo exemplo, seu emprego é permitido: “Ao invés de triste, mostrou-se feliz com o adiamento da entrevista de emprego.”. É possível observar claramente que “triste” apresenta significado oposto a “feliz”. Com isso, a expressão ao invés de foi empregada de forma adequada na frase, já que seu sentido original mantém-se preservado. Quanto ao primeiro, a troca não seria aceita, pois não há oposição entre os elementos envolvidos: “peixe” não é o contrário de “carne”. Justamente por esse motivo, não seria possível o emprego de ao invés de na frase.
De modo resumido, podemos concluir: em vez de pode ser usado para as noções de “substituição” e de “oposição”, ao passo que ao invés de deve expressar, rigorosamente, a ideia de “oposição”. Como muito se disse por aí, “cada um no seu quadrado”!
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V, nº 497, Região dos Lagos, sábado e domingo, 7/8-11-2009, p.4)
quinta-feira, 1 de abril de 2010
“GRAMA”: MASCULINO OU FEMININO?


Os nomes podem aparecer no masculino ou no feminino. Uma das formas de termos certeza disso é usarmos o artigo antes deles. “Mesa” é um substantivo feminino, porque só admite o artigo feminino antes dele (“a mesa”); já “telhado” é masculino, pois só o artigo masculino pode antecedê-lo (“o telhado”). Essa regra funciona bem para a identificação do gênero da palavra.
Na nossa língua, existe um caso bem interessante em que o uso do gênero masculino ou feminino provoca uma mudança de significado da palavra. Quando dizemos “A minha cabeça está doendo.”, temos “cabeça” como um nome feminino, significando “parte do corpo”. Na frase “Ele é o cabeça do grupo”, a presença do artigo masculino “o” antes do nome muda seu sentido para “líder”. Isso também ocorre com a palavra “cobra”. Em “A cobra foi encontrada dentro da casa.”, estamos nos referindo ao “animal ofídio”, mas, em “Ele é o cobra da turma.”, o substantivo diz respeito a um “especialista em determinada atividade”.
Uma palavra muito usada no nosso dia a dia é “grama”. Podemos empregá-la para nos referir à “relva” encontrada nos quintais de muitas casas ou à unidade de peso atestada pelas balanças espalhadas pelo comércio e também residências. Acontece que essa palavra tem sentido determinado pelo artigo que a antecede. Para o primeiro caso, temos “a grama”, como em “A grama precisa ser aparada.”; para o segundo, “o grama”, como em “Quanto está o grama do ouro?”. Isso se deve ao fato de, na realidade, constituírem palavras distintas, uma vez que têm origens diferentes: o nome feminino vem do latim “gramen”, já o nome masculino deriva do grego “grámma”.
Geralmente, o falante não apresenta dúvidas com o uso de “grama” no feminino. O problema está no uso do masculino. É muito comum ouvirmos, numa compra no supermercado, por exemplo, a pergunta: “Quantas gramas de presunto você quer?” E, em seguida, a resposta: “Quero duzentas gramas de presunto, por favor!”. Entretanto, nesse diálogo, o correto seria dizer “Quantos gramas de presunto você quer?” e “Quero duzentos gramas de presunto, por favor.”. Assim como a palavra “quilo”, “grama”, como unidade de peso, deve ser empregado com o artigo ou o numeral no masculino: “o quilo/o grama”, “dois quilos/dois gramas”.
Sendo assim, nesse caso específico, é preciso saber exatamente do que está se falando para usar o determinante (artigo ou numeral) adequado. Ainda que boa parte das pessoas desconsidere essa diferença nas situações cotidianas, precisamos valorizar a qualidade da comunicação, fazendo acertadamente as combinações entre os vocábulos de uma frase. Se o sentido da palavra muda de acordo com essa construção, é óbvio que o conteúdo da mensagem também se altera, o que, por vezes, traz prejuízos à clareza da informação.
(Coluna “No quintal das palavras”. Artigo publicado no Lagos Jornal, Ano V,Cabo Frio, quinta-feira, 2009, p.4)
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